A História da Camerata de Violões

Uma história pretende apresentar datas organizadas cronologicamente por vezes em ordem crescente, evidenciando progressivamente uma evolução. Outras vezes, na decrescente, onde o produto final é exposto e a partir dele se conta os fatos quase como argumentos. Ao apresentar os fatos ou argumentos lógicos, o texto é colocado em uma posição distante do leitor, como em um manual, parecendo ser o texto a “verdade absoluta” sobre algo. Aliás, a maneira de contá-la também importa, segue rigorosamente as normas linguísticas e estilísticas, e adota uma formalidade científica no dizer. Esta nossa história que não apresenta um gênero textual 'definível', não se presta a essas condições, buscando uma singularidade que é pertinente à Camerata e que, digamos, deseja homenageá-la.

Em 1996, durante uma reunião dos violonistas e professores Valmyr de Oliveira, Ricardo Filipo e Paulo Pedrassoli, do Conservatório Brasileiro de Música, começou a se formar a Camerata de Violões, que logo contaria com os músicos Gaetano Galifi, Celso Cerbella, Fábio Adour, Rogério Borda e Roberto Fontes, desde então sob a direção musical de Paulo Pedrassoli. Já nos primeiros ensaios do grupo recém-criado e em fase de acomodação, teve seu quadro de integrantes modificado. Artur Gouvêa é convidado ao grupo para substituir Duda Anízio, que por sua vez havia subtituído Roberto Fontes.

O grupo inicia seu percurso no cenário musical em sua terceira formação. O concerto de estreia ocorreu na missa de comemoração dos 60 anos do Conservatório Brasileiro de Música, em 1996, realizado na Igreja do Outeiro da Glória (RJ). Em meados do mesmo ano, a Camerata foi convidada a participar da tradicional festa alemã de Petrópolis, a Bauernfest, contando com um público de mais de duas mil pessoas.

Um fato divertido ocorreu em Faxinal do Céu (PR), fevereiro de 1997. Houve um equívoco na edição dos programas do concerto: ao anunciar a Camerata ao palco, o apresentador, ´lendo o que estava escrito´, acabou por apelidar o grupo por Camerata de “Vilões”, causando estranhamento e risos. No mesmo programa, constava ainda que o diretor musical, Pedrassoli – que apesar de jovem, tem um charmoso cabelo grisalho e na data estava de muletas por ter machucado a perna – foi descrito como “aposentado pela crítica” em vez de “apontado pela crítica”. Esse conto rende ao músico boas risadas desde então...

O repertório integra o erudito ao popular e nele constam músicas da nova geração de compositores, como Roberto Victorio, Rogério Borda, Gaetano Galifi, ao lado de grandes nomes da história da música de concerto brasileira, como Lorenzo Fernandez, Villa-Lobos entre outros.

A Camerata de Violões vem conquistando a admiração do público e de grandes músicos, como Hermeto Pascoal, compositor e multi-instrumentista brasileiro, que já dedicou uma composição inédita ao octeto, a “Música para a Camerata de Violões”, presente na primeira produção do grupo.

O primeiro CD, gravado na Sala Cecília Meireles, é lançado em 2001. A obra recebeu referências elogiosas da crítica especializada nacional e internacional, a exemplo da revista inglesa Classical Guitar: a ÚNICA revista dedicada ao violão clássico, que definiu o conjunto como “uma orquestra de violões que produz um som deslumbrante”.

O segundo CD é gravado ao final de 2004, sendo lançado somente em 2008 pela Biscoito Fino, “gravadora independente, comprometida com a produção musical de qualidade” *, com indicação ao Grammy Latino, premiação de música para as melhores produções da indústria fonográfica latino-americana.

Com oito anos de Camerata e em sua nona formação, entram Eduardo Gatto e Adriano Furtado. A constante renovação de integrantes no grupo revela uma dança das cadeiras repleta de talentos e diferentes experiências musicais que enriqueceram muito nosso trabalho. Eduardo chega com a saída de Bruno Correia, que hoje dedica-se ao alaúde e entrou no lugar do virtuoso Fábio Adour, que assina a transcrição de “Três Estudos em forma de Sonatina”, de autoria de Lorenzo Fernandez, e que ajudou na estruturação e inserção alguns complementos importantes na peça de Hermeto Pascoal, ambas gravadas no primeiro CD. Eduardo é músico atuante nas áreas de performance, composição e arranjo. Integra tanto a Camerata de Violões, tocando violão de seis cordas, como o grupo “Música Surda”, tocando violão de oito cordas e guitarra portuguesa, ao lado de Artur Gouvêa, seu companheiro na Camerata.

Adriano entra no lugar antes ocupado por Antonio Mello, autor da peça “Choro Transfigurado”, gravada no segundo CD e quem havia substituído Ricardo Filipo, um dos fundadores do grupo, que também deixa a sua marca gravada na transcrição do “Batuque”, da ópera “Malazarte”, de Lorenzo Fernandez, parte do primeiro disco.

Adriano, músico, arranjador e compositor, revelado pela Orquestra Jovem de Cordas Dedilhadas do projeto Tocando a Vida, idealizado e realizado pelo Conservatório Brasileiro de Música, toca violão (6 e 7 cordas) e viola caipira e mantém um forte vínculo com a música popular, participando como violonista de sete cordas do Grupo Cultural Jongo da Serrinha.

Uma sucessão de substituições ocorre, a contar do início: Celso Cerbella, que assina o arranjo de “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth, gravado no segundo CD é sucedido por Célio Delduque; em seguida por Luis Leite, violonista e compositor com premiada carreira internacional; depois por Lenine Vasconcellos que participou do octeto desde 2002, tendo seu arranjo da música “Congada”, de Francisco Mignone, gravado no segundo CD; e por fim, ao final de 2011, o violonista (6 e 7 cordas), arranjador e guitarrista flamenco, Fábio Nin, trazendo ares de Espanha e, claro, de música brasileira.

Compondo a nova fase do grupo, após a saída do Pedrassoli, a Camerata em 2012, ganha sua primeira integrante, Elodie Bouny, a nova “Branca de Neve” entre os “sete vilões” (a antiga era (…) deixa pra lá). Elodie, uma simpática parisiense, traz ao grupo uma sonoridade vigorosa e vasta experiência musical como compositora, arranjadora e violonista.

Dentre os trabalhos mais recentes, destacaremos em 2013, onde a Camerata de Violões foi convidada pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EM-UFRJ) a se apresentar em seu Festival Internacional de Violão, ocasionando o encontro com a Orquestra de Cordas do México e o Octeto Sicarú. Seu maestro e fundador, Rodrigo Lara Alonzo, violonista mexicano, em sua dissertação, defendida pela EM-UFRJ, cita a Camerata de Violões. Esta apresentação é um marco também pela estreia do novo, vibrante  e marcante uniforme, assinado pelo figurinista Wanderley Gomes.

Em 2014, Luciano Câmara substitui Gaetano Galifi, que tem vistas de seguir exclusivamente como solista após dezoito anos de ensaios, arranjos, descompassos e piadas que já deixam saudades. Tem extensa produção no grupo como compositor no primeiro, no segundo e terá no terceiro CD. Luciano, violonista, compositor e arranjador, estreou em grande estilo, no aniversário de Cecília Conde no auditório Leopoldo Miguez, Conservatório Brasileiro de Música.

Hoje, contando doze formações, aos muitos amigos que fizeram parte da Camerata de Violões gostaríamos de agradecer: Roberto Fontes, Duda Anizio, Celso Cerbella, Fábio Adour, Célio Delduque, Bruno Correia, Ricardo Filipo, Luís Leite, Lenine Vasconcellos, Antonio Mello, Gaetano Galifi e Paulo Pedrassoli, que por dezesseis anos atuou também como diretor artístico do grupo e no final de 2012 despediu-se para cumprir seu doutoramento em Portugal.

Permanecem desde a primeira formação Rogério Borda e Valmyr de Oliveira.

Rogério é Guitarrista, violonista, professor e compositor e marca presença nos dois discos do grupo com suas composições “Cor Esperança”, no primeiro disco e “Bloco da Pitangueira” e a transcrição de “Toccata” de Cláudio Santoro, no segundo.

Valmyr, violonista, compositor e arranjador, tem no primeiro CD “Fantasia sobre o Baião de Luiz Gonzaga” e no segundo, o arranjo de “Noite de Seresta”, de Almiro Zarur.

Parceiros